sexta-feira, 31 de agosto de 2018

A Menina do Casarão: Capítulo 3



— Wesley acorda.
Senti meu pai me balançando. A forte luz do sol estava afetando meus olhos, e coloquei o braço para impedir. 
— Você está bem? — Eu vi a preocupação em seus olhos.
— Estou. — Menti. Sempre mentindo. 
— Você estava gemendo e suando frio.
Sentei na cama enrolado na coberta. 
— Foi só um pesadelo de nada. Já passou.
Obviamente, alguma coisa estava acontecendo. E estava relacionado com o que aconteceu horas atrás. 

— Preciso de sua ajuda com umas caixas lá embaixo no porão, e pelo que vejo é melhor eu terminar sozinho.
Essa era a chance de eu conseguir o colar e me livrar daquela fantasma estranha.
— Já vou descer. Só vou escovar os dentes.
Meu velho saiu e corri para o banheiro. Enquanto escovava os dentes pensei em tudo que tinha acontecido. A marca em meu corpo, o aparecimento da menina em meu quarto e nossa conversa fantasmagórica. Puta merda tudo parecia  tão real. Minha mente tentava processar tudo, mas como eu encontraria um colar que não tinha descrições dos detalhes? E muito menos não sabia por onde começar. Mas... Espera um segundo. Se eu estou louco para encontrar um colar então tudo que aconteceu tinha sido real.  Ouvi o som de buzina fazendo meus pensamentos evaporarem. Quem seria? 
Desço as escadas correndo. Meu pai já estava na porta. 
— Aqui está ele.  — dizia meu velho para alguém. Em seguida ele se afastou da porta abrindo espaço. 
Com quem meu pai falava? Não demorou muito para reconhecer a voz.
Aproximei da porta e tive certeza.
— Ei cara, você está bem?
Sem reação só consegui dizer:
— Como você achou minha casa?
Ele sorriu e entrou. Era o Junior. 
— As noticias aqui correm e eu não moro muito longe daqui. Logo soube que era você o maluco que veio morar nesse casarão. — disse se aproximando. 
— Do que você está falando?  — Não estava entendo ao que ele se referia.
Senti meus pelos eriçarem.
— Não acredito que você não sabe da história dessa casa? 
Seu tom de voz revelava total surpresa.
Lembrei que Margaret queria me contar algo, e foi interrompida por causa de meu pai. Ou por minha causa. O que era muito mais provável.  Será que era a história da casa? Eu balancei minha cabeça tentando não associar. 
— Pior que não. Mas, cara, antes de tudo. O que aconteceu ontem na festa?
Ele respirou e eu pude ouvi. 
— Nada demais. Apenas bebemos, depois eu trouxe você para casa. Esse é um dos motivos pelo qual sei onde você mora.
Ele parecia sincero. 
— Você me drogou? —  Perguntei sem rodeio. 
Ele riu. Riu e riu. 
— Qual é cara, eu jamais faria isso contigo.
Assenti. 
— Desculpa, é que acordei com essa marca.
Mostrei a marca, ele analisou, mas nada disse.
— E então... — quebrei o silêncio sentindo meu estômago revirando.
— Cara, as coisas estão mais além do que eu esperava.
— Do que você está falando?
Nada estava fazendo sentindo. Desde que cheguei nesse lugar nada fazia muito sentido. O Casarão, a escola, a festa, o Junior,  a Margaret, tudo. Antes que ele pudesse falar alguma coisa, contei sobre o colar e sobre Margaret. Ele apenas concordava ou dizia "umrum", como se já soubesse de tudo.
— Vamos lá ao porão. Meu velho precisa de uma mãozinha.
— Agora tem duas.
Ele me deu umas tapinhas nas costas e descemos as escadas. Essa era a primeira vez que tinha ido ao porão da mansão. O lugar estava com um cheiro de queimado, mofo e sujeira tudo misturado. Caixas e mais caixas estavam jogada ao chão. Roupas velhas, quadros. Teias de aranha em diversos pontos do porão. Perguntei-me como meu velho estava conseguindo respirar ali naquele lugar. 
— Meu velho. Trouxe uma mão extra.
Ele olhou para Junior e voltou a organizar as pilhas de caixa.
— Ajuda é sempre bem vinda.
Assenti para Junior e ele me seguiu. Começamos a remexer nas caixas que estavam no chão. Baratas, ratos, lagartixas, aranhas já tinham feito seus ninhos. Era difícil colocar a mão dentro da caixa e não senti um ratinho passeando, ou uma barata tentando subir em meu braço. Ficamos entretidos arrumando aquele lugar. Abrindo caixas, tirando poeiras. Perdemos a noção do tempo e não encontramos nada de colar. 
Junior olhou para seu pulso e se assustou.
— Nossa cara. Está na hora do almoço. Tenho que ir embora.
— Almoce com a gente hoje.
Senti que ele ficou receoso. 
— Relaxa, cara, meu velho é assim, mas é gente boa. — sorriu. 
Ele retribui com um sorriso constrangido e voltamos para sala.
***
— Pode me contar a história —  digo agora que estamos sentados à mesa.
Junior ainda estava meio tímido por causa de meu pai. Foi muito difícil fazer com que ele ficasse para o almoço. Sempre usando uma desculpa plausível para que não ficasse. 
— Meninos vou almoçar em meu quarto. — disse meu pai pegando o prato e levantando da mesa. Sorri para meu velho que correspondeu com a cabeça.
— Eu moro aqui desde pequeno e sempre ouvi comentários sobre os Vandeburgs.
Peguei o copo próximo a mim e tomei um longo gole de refrigerante. 
— Que tipo de comentários?
— Que eles eram diferentes.
Levei mais uma garfada de macarrão à boca.
—  Diferente como? —  perguntei já imaginando o que ele diria. 
— Eles tinham poderes.
Bingo! 
— O pai das meninas não aceitava que elas usassem seus "poderes" dentro de casa. Ele sempre chamava as filhas de aberrações, filhas do demônio e coisas do tipo.  — Começou contando a história. 
— E a mãe delas? — Perguntei curioso.
— Ela não se envolvia naquilo. O marido também a recriminava.
— Ele não sabia que ela era diferente quando a conheceu? — Eu o interrogava como se fosse um jornalista. Mas estava apenas curioso e apreensivo.
— Não! Ela escondia de todos. Segundo os mais velhos da cidade, ela tinha fugido de um vilarejo no qual foi descoberto sobre sua família. — ele tomou um gole de suco e continuou: — Então eles se conheceram e tiveram três filhas. A infância delas não foi lá essas coisas. Elas faziam coisas acontecerem. Tipo copo quebrar enquanto o pai bebia água. Elas não podiam se estressar que as lâmpadas da casa estouravam. Dizem até que elas já mataram uma garota na escola. 
— E o colar? — Minha voz estava estranha, trêmula.
— O colar é o amuleto da família Vandeburgs. Está na família a gerações e o pai descobriu que afastando o colar das meninas seus poderes enfraqueciam. E ele teve a péssima ideia de colocar fogo.
— A casa pegou fogo. — Sussurrei como se estivesse cometendo algum erro ao dizer aquilo.
— Exatamente.
Junior estava com a faca e o garfo na mão. Segurando os dois fortemente. 
—Wesley.
Eu me assustei, sem fôlego. Olhei para ele. 
— Você ouviu?  — Pergunto olhando para cada canto daquele cômodo. 
Junior fez que sim com a cabeça.
As janelas do casarão se fecharam produzindo um barulho ensurdecedor. Só pensei em meu velho. O que ele iria dizer sobre aquilo? Uma névoa  começou a surgir pairando na cozinha formando uma imagem.  Aquela imagem que eu já tinha visto em meus sonhos (ou na realidade?). Era ela... A dona do colar. A que foi morta pelo próprio pai por não aceitar alguém diferente. 
Era a Margaret.
  ÚLTIMO CAPÍTULO DIA 07/09/2018

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