Capítulo 2
Acordei ofegante e suando frio — uma queda brusca, uma sensação estranha que se estendia por todo meu corpo. Estava tremendo. Apesar de está suando, o frio da noite era intenso. Puxei as cobertas e cobri meus ombros, sentindo meu coração batendo rapidamente. A janela estava aberta. Por que minha janela estava aberta? Minha cabeça estava latejando. Precisava de um copo d'água. Levantei um pouco tonto, caminhei e acendi a luz. Fecho os olhos para que eles não sintam o efeito pós escuridão. Será que foi efeito de toda bebida? Acho que não. Eu cheguei em casa lúcido e puto da vida por não ter conseguido ficar com a Fernanda. Mas esse momento não é adequado para falar disso. Me olhei no espelho e notei um hematoma no pescoço (Toco no hematoma, mas não sinto dor alguma. É indolor.). Não foi efeito da festa de forma alguma. É indolor Voltei para cama e sentei. O sonho foi reaparecendo em minha cabeça.
Eu não conseguia ver seu rosto, apenas ouvia a sua voz sussurrando algo que não conseguia decifrar. Seriam fantasmas? Não! De forma alguma. Eu não leio para ficar com a imaginação tão fértil a ponto de imaginar que fantasmas estavam tentando me avisar alguma coisa. Porém essa marca no meu pescoço é completamente insana. Quando chegar à aula vou perguntar a Junior o que realmente aconteceu. Será que ele me drogou? Puta merda! Será que ele estava afim de mim, me drogou e... Não, nunca! Ele parece ser um cara tão gente boa. Não faria uma coisa dessas e se fizesse, eu acabaria com a raça dele. Ah, se acabaria. Talvez foi algum mosquito que picou, ou cocei a noite. São tantas suposições.
— Wesley — Meu velho perguntou enquanto abria a porta do quarto. — Que diabo está fazendo acordado há essa hora?
Eu olhei para meu relógio digital que marcava 03h45m.
— Um sonho estranho — eu digo, tentando parecer normal. E porque não estaria normal? Desde quando eu me importava com um simples sonho incomum.
Ele entrou e encostou a porta.
— Isso que dá chegar tarde e beber no seu primeiro dia de aula.
Bufei.
Se fosse assim, todas as vezes que eu chegava em casa caindo de bêbado da casa do Douglas eu deveria ter sonhos estranhos, mas não tinha.
— Acho que não.
Ele sentou ao lado na cama, olhei para ele, seus olhos castanhos escuros estavam cheio de preocupação. Sua fisionomia cansada e abatida.
— Você deveria está descansando. — digo, preocupado e tentando mudar o foco da conversa.
— Não estou com sono.
Ele me fitava e eu estava ficando completamente sem graça. Meu pai era a única pessoa, depois de minha mãe que me deixava completamente sem graça.
— Te digo o mesmo. — Ele apertou os olhos.
— Moleque se orienta.
Abaixo a cabeça envergonhado.
— Desculpa.
Ele se levanta da cama.
— Trate de descansar que daqui a pouco você vai me ajudar a organizar toda essa bagunça.
Revirei os olhos.
— E a escola?
— Hoje é feriado.
Estava confuso.
— Feriado? De quê?
— Dia dos mortos.
Engulo a saliva e sento meu corpo tremer. Meu pai sai do quarto e volto a dormir, pelo menos tentar. Fiquei olhando para o teto velho do quarto. A única forma de pegar no sono é contando carneiros.
***
Ouço uma batida forte na porta do meu quarto. Levanto assustado e olho em volta.
— Pai? Meu velho? — chamo.
Levanto da cama, e percebo que já não estava mais tonto. Vou até a porto, abro, coloco a cabeça para fora. Olho tanto para o lado direito, quanto esquerdo do corredor. Vazio. Engulo a saliva, fecho a porta e volto para cama. Percebo que a janela ainda está aberta. Fecho e me jogo na cama. Coloco os braços atrás da cabeça e uma perna em cima da coxa. Fico pensando em diversas besteiras que pensamos quando estamos na cama. Pensando sobre o futuro, sobre o que passou que queríamos ter feito de forma diferente pensando até que ouço uma voz.
— Wesley
A voz era serena, e sinto como se estivesse dentro de minha cabeça. Levanto e sento na cama.
— Quem é?
— Margaret.
O que há de errado comigo? Estou ficando louco, ou é algum vizinho pregando alguma peça?
— Que diabos é Margaret?
Silêncio.
Um longo silêncio. Aquele silêncio me irritou. Dei um longo suspiro, me levantei e caminhei até a porta. A porta estava trancada, mas minutos atrás estava aberta. Parecia loucura. Seguro a maçaneta e puxo com força. Nada. Completamente trancada. Respiro fundo. Chuto a porta com força.
— Podemos conversar? — Perguntou a voz.
Eu queria rir, mas senti um frio terrível na barriga. Como vou conversar com alguém que não vejo?
— Conversar o quê? — Vou entrar no jogo. Se é para jogar estamos aí.
Sinto a brisa da noite em meu rosto. A luz da lua era a única coisa que iluminava o quarto.
— Não tenha medo e não se assuste. — diz a voz dentro de minha cabeça. Era como se tivesse mais alguém dentro de meu corpo. Duas almas hospedando dentro de um único corpo.
Após suas palavras, eu vi algo aparecendo no canto do quarto. Era surreal. Não consigo descrever a como a imagem de uma menina surgia. Me afastei dando uns passos para trás e dou de encontro com a porta. Seguro a maçaneta. Esqueci que estava fechada. Meu coração está batendo tão forte, mas tão forte que é possível ouvirem a quilômetros de distância.
— Você é um fantasma? — pergunto sem noção nenhuma do que estou perguntando.
— Não tecnicamente.
— Como assim?
Minha mente estava um pouco lenta.
— Estou morta e preciso do descanso eterno.
— Mas... — minha voz falhou — você deveria está descansando, e não aqui falando comigo.
Ela apareceu na luz. Senti um choque no meu corpo após ver aquela imagem deprimente. Ela tinha o cabelo louro com mechas rosa nas pontas, algumas tranças em parte do cabelo, entretanto isso não era o pior. Seu rosto. Senti algo embrulhar em meu estômago. E não estou de "frescura". Seus pálidos olhos verdes e um sorriso na boca que apesar de deformada encantaria qualquer menino, não, menino não, fantasma. Ela possivelmente deveria ter minha idade, talvez dezessete ou dezoito no máximo, com uns centímetros a mais que eu. Ela deu um passo e parou até que eu pude ver por completo o seu rosto através da luz da lua. Parte dele estava completamente queimado. O pior tipo de queimadura que eu já vi. A parte queimada estava funda, como se algo tivesse caído. Um pedaço de pau em chamas, ou sabe-se lá o quê. Pensei em perguntar, mas não queria constrangê-la. Fantasmas ficam constrangidos?
— Estou há tempos esperando por alguém que abrisse a porta pra mim.
Vestida com um camisão branco que tinha um desenho estranho. Fique analisando por um tempo e percebi que era um triângulo dentro de um circulo e dentro desse triângulo tinha um olho. Sinistro.
— Alguém assim, tipo eu?
Ela concordou e abriu um sorriso que apesar da queimadura era lindo.
— Alguém que pudesse me ouvir, ver e sentir.
Sentir? O que ela estava pretendendo? Um sexo fantasmagórico? Sacudi a cabeça ao pensar nisso. Nada disso fazia o menor sentido. Eu só podia está sonhando. Aquele tipo sonho lúcido.
— Não isso que você está pensando.
Caralho! Ela pode ler minha mente.
— Tecnicamente sim. Antes de eu... — ela hesitou, e então concluiu — morrer. Eu era diferente.
Mordo o lábio inferior co força e sinto um leve gosto de ferro.
— Diferente tipo, com poderes? — Ela esboçou um rápido sorriso. Aquele tipo de sorriso que confirma tudo. Aperto a maçaneta tão forte.
— Isso.
Não digo nada, só observo a morta em meu quarto. Nós dois permanecemos em silêncio sem saber o que dizer. Até que...
— Foi por isso que...
— Não. Eu não sou uma bruxa e não fui queimada na fogueira.
O ar ficou preso na minha garganta.
— Antes de você morar aqui, outras pessoas já moraram, e nenhuma delas abriu a porta pra mim. Eu preciso descansar em paz. Minha missão já foi finalizada.
Nada digo.
— A única coisa que quero — diz com a voz fraca, distante como o vento — é que você ache o meu colar.
Só pode ser brincadeira.
— Qual colar? — Sussurrei.
— O colar da minha linhagem.
— Linhagem? Então você quer dizer que existe mais igual a você?
Eu balanço minha cabeça e sento como se estivesse me afastando dela. Nossa "conexão" ficando fraca.
— Por favor, resista, não vá agora.
A cada segundo me sentia distante dela até que acordei.
PRÓXIMO CAPÍTULO DIA 31/08/2018

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