quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A Menina do Casarão: Capítulo 1

Capítulo 1


O novo sempre causa medo. Era isso que minha mãe diria se estivesse aqui conosco, mas isso não é possível, não porque ela viajou, ou me abandonou desde criança, pelo contrário, minha mãe nunca me abandonaria. Ela está morta. Hoje está fazendo um ano e para "comemorar" meu pai resolveu realizar o seu próprio desejo. Se mudar para um casarão. Você deve está se perguntando qual o tipo de marido faria comemoração da morte da esposa, pois esse é meu pai, o Honório. Ele tem uma forma estranha de demonstrar seus sentimentos. Não o culpo, ele sempre foi apegado a minha mãe, na verdade ainda é. 
É difícil perder quem amamos. 
— Wesley, me ajude aqui — Ouço meu pai chamando e saio do banheiro para saber do que se trata.Meu pai está na sala segurando duas caixas cheias de bugigangas. Ele sorri com os olhos ao me ver e faz sinal com a cabeça para que o acompanhe. Corro e pego uma das caixas. Meu pai não está tão velho quanto sua aparência mostra, seu rosto está mais magro do que o normal, sua barba enorme por fazer e seu cheiro de cigarro contamina qualquer lugar em que ele esteja. Ele infelizmente se entregou ao desprezo. Sem vontade de viver ou fazer qualquer coisa sem a minha mãe presente. 
— Está cheiroso em garoto. — Ele sorri e continua subindo as escadas da casa.
A casa não é muito velha por dentro quanto aparenta por fora. Inicialmente eu fiz "charme" — como as garotas dizem — para que a gente não se mudasse. De nada adiantou. Ele já queria morar em um casarão desde quando minha mãe era viva, e como ela tinha a palavra final dentro de casa, meu pai sempre concordava em ficar, mesmo resmungando quando ela virava as costas. 
Me pego sorrindo com as lembranças.
— Está rindo do quê? — Ele me olha estranho.
Com certeza deve achar que estou ficando maluco.
— Nada demais. Só lembranças.
 — Da sua mãe? — Sua voz sai baixa e melancólica, e isso parte meu coração. 
Ele coloca a caixa na porta de um dos quarto e abre a porta. Essa casa é cheia de quartos no andar de cima, o que para mim é ótimo. Quando viemos conhecer o casarão e descobri os milhares de quartos que a casa tinha, liguei de imediato para Douglas (um dos meus melhores amigos) informando que em breve teríamos uma festa. 
— Também — tento ser o mais normal possível para evitar qualquer tipo de sofrimento ainda maior para ele.
Entro no quarto que possivelmente será o dele. O sol entra pelas duas janelas imensas. O quarto está muito sujo e repleto de teias de aranhas. 
— Há quanto tempo esse lugar não vê uma vassoura?
Ele sorri quase dando uma gargalhada. É muito bom ver meu velho dessa forma.
— Não sei, mas de uma coisa eu tenho certeza. Você vai me ajudar a dar um jeito nessa bagunça. Suspiro. Sabia que iria sobrar pra mim. 
— Não venha que não tem. Daqui a pouco estou indo para escola. Não posso ficar sem estudar. Isso é muito importante para meu futuro.
Ele abre uma das janelas e sinto o calor do sol em meu rosto. É uma sensação tão maravilhosa. O dia está esplendido e de verdade não posso perder meu primeiro dia de aula. Não que eu ligue para essas frescuras. Aulas são sempre aulas, tanto no primeiro quanto no último. E meu pai sabe o motivo de eu querer ir logo para escola. 
— Você quer estudar ou conhecer as gatinhas?
 Eu não disse? Esse é meu pai. Tive a quem puxar. O velho garanhão da Petrik, sua cidade natal. 
— Ah... Você realmente me conhece.
Ele abre os braços, eu não queria abraçá-lo.Ficarei com um cheiro miserável de cigarro. Bem... Tem garotas que gostam de caras que fumam. Aproximo-me rapidamente dele e o abraço. Seu cheiro é insuportável. Ele bagunça meu cabelo, fico irritado e me afasto.
— Fala sério, meu velho. Você bagunçou todo meu cabelo. — Balanço a cabeça indignado enquanto tento ajeitá-lo.
— Esse cabelo de maricas.
Me seguro para não dizer algo indevido. Lembro que não estou com meus amigos.
— É ai que você se engana. — Digo enquanto termino de ajeitar o cabelo. — Aqui é o corte César, referindo-se ao estilo do imperador romano. 
— Maricas. — ele solta uma gargalhada alta— Mas ainda assim é meu filho.Ele me segura pelo rosto e olha em meusolhos. Sinto a tristeza naqueles olhos apesar dele está gargalhando.  — Seusolhos — sinto sua voz falhar — me lembra muito a sua mãe.Fecho os olhos e abro novamente.
— Não, não parece — tento não envolver minha mãe no assunto — meus olhos são idênticos ao de minha avó Judith. Eles são acinzentados.
Me afasto de meu pai e ajeito o cinto da calça. Ele me da as costas enquanto arruma alguns objetos espalhado no canto do quarto. Suspiro e seguro as lágrimas. É tão difícil para ele assim como é para mim lembrar de coisas que remetem a minha mãe. 
— Pai — ele se vira abruptamente — preciso ir. Estou atrasado. 
O que eu realmente queria dizer era: Pai estou indo me empresta o carro? 
Ele me estuda por um minuto que parece ser uma eternidade, mexe no bolso.  Ouço o barulho das chaves, umaesperança cresce dentro de mim, mas quando ele tira a mão do bolso, sinto-me frustrado, pois em suas mão está algumas cédulas. Ele me entrega. 
— Essa semana você vai de transporte público. Não quero você se exibindo por ai, além do mais, você não conhece essa vizinhança.
Pego o dinheiro da mão dele. Decepcionado. 
— Vizinhança essa que você fez tanta questão de morar.
Ele levanta a mão e saio correndo. Desço as escadas, me olho no espelho. Estou um gato. Corrijo olhando para meu reflexo. Eu sou um gato. Vou até a sala, pego minha mochila no sofá, coloco o dinheiro no bolso e saio para escola.
***
Depois esperar quase 1 hora no ponto, pegar um ônibus errado, esperar mais meia hora por outro ônibus, finalmente cheguei à bendita escola. Todo sacrifício é valido, quando se tem um objetivo. 
Decepcionei-me com a escola, tinha aparência de internato para delinquentes juvenis. Mas, não vou julgar o livro pela capa. Não é assim o ditado? No momento em que vi aqueles caras chegando em seus carros me subiu uma raiva de matar. Porque meu pai é assim? O que custava deixar usar seu carro? Eu não sou um delinquente, poxa.
Entrei na escola e tive um choque. Puta merda! Parecia um palácio. É como eu disse não julgar o livro pela capa. A escola tinha aproximadamente sete andares. Como era possível? Do lado de fora parecia ser no máximo três.  Algo está completamente errado. Mas isso não tinha importância. O que realmente importava era que não era uma escola para delinquentes. Não vou negar que fiquei parecendo um turista no meio do "pátio?" enquanto a galera ia e vinha. 
— Seja bem-vindo. — Assustado, virei rapidamente.
Era um trio. Uma gata e dois caras. Puta merda, a gata era realmente gata. Ela estava usando uma saia jeans de um palmo,salto alto e uma blusa que pouco importava. Ela deu um passo e sorriu. 
— Seja bem-vindo. Sou a Fernanda.
Sorri educadamente e estendi a mão. Segurei firme em sua mão delicada e quente. Cumprimentei dando dois beijos em suas bochechas. Na real, o que eu queria mesmo era agarrar ela e dar um beijo que ela nunca mais esqueceria.
— Esse é o Lucas — disse apontando para ocara moreno alto que assentiu — e esse é o Junior. O outro cara tinha cara de ser divertido, diferente de Lucas que parece ser mais responsável e chato.Junior era um pouco maior que eu. Com o corte de cabelo repicado. Usava uma calça jeans rasgada no joelho e um moletom básico. 
— Como você — me corrigi — vocês, sabiam que eu sou novo aqui? — Junior sorriu.
— Sua cara de surpreso ao entrar aqui é a mesma que todos fazem. Ninguém acredita no tamanho da escola.  
—Verdade. — digo olhando estupefato mais uma vez para a escola.
— Qual seu ano? — Perguntou o grandalhão.
— Terceiro. 
— Junior se aproximou de mim, colocou seu braço em meus ombros e saiu andando como se já nos conhecêssemos há dias.
— Você é da nossa turma, cara. Não acredito! — Junior fecha a mão e faz sinal de que vai bater na minha. Faço o mesmo e damos um soco ao juntar nossas mãos. 
— Calma Junior não vai assustar o menino. Menino? Quantos anos o grandalhão acha que tenho? Doze? Saímos caminhando pela escola.
***
Depois do tour pela escola, eu realmente percebi o quão grande ela era. Fernanda me apresentou algumas amigas que eram lindas por sinal. Senti-me no paraíso. A última aula finalmente terminou e saina frente antes da turma.
— Ei cara, espera.
  Olhei para trás e vi Junior correndo em minha direção. Parei e fiquei esperando. Ele chegou ofegante como se tivesse corrido em uma maratona.    
— Está precisando fazer uns exercícios. — Ele concordou.
— Sou sedentário.
— Então, o que houve? Ele esperou o barulho dos alunos que estavam indo embora passarem e então disse:
— Vai ter uma festa algumas ruas daqui. Está afim?
Era tudo que eu queria naquele momento. Mas tinha dois obstáculos: O primeiro era que meu velho iria ficar preocupado. E o segundo é que estou sem carro. É claro que eu não disse nada disso.
— Putz, eu bem que queria, mas sou novo aqui, conheço nada. Ele deu uma tapa em minha cabeça.
— Acorda mano. Você vai está comigo. — Fiquei receoso, e então perguntei:  
— Fernanda vai?
Ele riu e falou tão baixo que parecia um sussurro.
— Você está a fim de dar uns pegas nela não é? 
Não queria sorri. Um sorriso confirma tudo em momentos que você não quer afirmar nada.
Ele estava começando a falar minha língua.
— Estou sem carro. 
— Estou de moto. Concordei e o segui. 
Sua moto estava atrás da escola em uma rua deserta. Caralho! Eu não quis mostrar meu espanto. A moto dele era a Kawa EP-6n20. Ele ligou a moto e fez sinal, corri e sentei na garupa. Estou começando a gostar desse lugar. Partimos com destino a festa.


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